16 abril, 2014

Ainda a propósito de “Lisboa Vs Resto do País”


Embora este blog sirva essencialmente para denunciar o enviesamento e falta de isenção política / ideológica da comunicação social portuguesa, os temas relacionados com o centralismo são presença assídua por serem a expressão de outro tipo de falta de parcialidade mediática…

Em Portugal, assunto abordado neste post, não existe uma uniformidade de valores, de opiniões e conceitos vários no que diz respeito à forma como a sociedade se deve organizar do ponto de vista social, económico, etc.. No entanto, em virtude da esmagadora centralização dos meios de comunicação social, a visão de quem está na capital (que é a minoria, convém dizer…) tem um peso e uma expressão incomensuravelmente maior, do que a visão de quem está fora da capital (“Portugal, é Lisboa e o resto…”).

Os posts na categoria “Lisboa Vs Resto do País” visam retratar esta desigualdade de tratamento, facilmente verificáveis nas mais variadas matérias como dão exemplo (entre outros) estes posts:

“Do Portugal silencioso";

 “Portugal, o bastião da Equidade...”;

“O País dos telejornais das 20h, será o País Real?”

“Nascer no País da Equidade…”

Esta centralização do poder político e administrativo em Lisboa, somada ao “centralismo mediático” é (do ponto de vista do autor deste blog, claro...) um dos principais obstáculos à introdução das reformas que o País precisa. Essa reforma é imprescindível para que Portugal possa sair desta crise e tornar-se num país mais desenvolvido.
 
Passa-se, mais ou menos, assim:
1 Um político vive de votos;

2 A conquista de votos está diretamente relacionada com a resolução (ou aparência de resolução …) dos problemas que os cidadãos sentem ou percecionam;

3 Uma larga maioria dos cidadãos, perceciona a dimensão / premência de um problema em função da visibilidade que a comunicação social lhe atribui (o que não é levado a um telejornal não existe);

4 Em Portugal, a esmagadora maioria da comunicação social está em Lisboa, logo, qualquer problema, evento ou acontecimento que aí se desenrole, tem uma visibilidade infinitamente maior que em qualquer outra parte do País;

5 Os políticos, em sociedades fortemente mediatizadas e fruto da sua caça ao voto, andam a reboque da agenda da comunicação social.
Pelo exposto em 4, o excessivo foco em Lisboa e o crescente poder dos media nas décadas recentes, conduziu a um peso e uma influência crescentes nas opções e políticas públicas adotadas, cada vez mais, em função das prioridades e interesses da capital *;

6 Aqui chegados, com 1/3 (ou mais) da população portuguesa instalada em redor da capital, o pior que pode acontecer a um político é ter problemas em Lisboa, pois qualquer manif abre um telejornal.
 
 
Os interesses da capital, nomeadamente, os que se prendem com a redução da monstruosa máquina do Estado Central – oferecendo empregos e garantindo bons salários a que aí reside, mas sustentada pelos impostos de todos os portugueses, recorde-se – são quase intocáveis.

Por essa razão, é usual ouvir falar no fecho de centenas de escolas no resto do País, mas persistem os milhares de burocratas na sede do Ministério da Educação e Direções Gerais e Regionais.

Por essa razão, é usual ouvir falar no fecho de maternidades ao longo do país (onde mães dão à luz em ambulâncias) mas fechar a Maternidade Alfredo da Costa é algo impensável.
 

Por essa razão, o Estado português obriga lavradores, na sua maioria idosos, com pouca instrução e que praticam uma agricultura quase de subsistência, a coletarem-se nas finanças para poderem vender uns kg de legumes ou fruta, à beira da estrada ou na praça da sua vila, enquanto permite que a incompetência de quadros altamente qualificados e bem pagos, que recheiam os múltiplos organismos e institutos na alçada do Ministério da Agricultura sedeados na capital (o que estão lá a fazer!?), continuam e perder - ano após ano - milhões de fundos comunitários sem qualquer consequência.



E se a Mexicana fosse em Melgaço?…

O desprezo e o desrespeito evidenciados pelo poder e pela máquina administrativa do Estado, por tudo aquilo que se passa fora de Lisboa manifesta-se todos os dias e sob diversas formas…

Na semana passada duas notícias cativaram a minha atenção por darem conta dessa discrepância de tratamento, no caso, relativamente ao "nosso" património.

A Pastelaria Mexicana em Lisboa, foi classificada, segundo um despacho da Secretaria de Estado da Cultura, como monumento de interesse público. Entre outos fatores, esta classificação decorre da sua relevância, entre outros, pelo que aquele espaço reflecte do "ponto de vista da memória colectiva".


Simultaneamente, nos mesmos recônditos gabinetes da capital, embora, certamente, em distinto edifício e serviço público, outro processo e decisão estava a ser tomada…




Sem consultar sequer as autoridades locais, a administração central decidiu vender “… os 60 metros quadrados de terreno mais a norte de Portugal e a mais importante caseta da Guarda Fiscal que o Governo aceitou vender, sem consultar ninguém, a um privado que, por acaso, é espanhol", denuncia, ao JN, António Sousa, presidente da Junta de Freguesia de Cristóval, em Melgaço, onde se situa a emblemática fronteira de S. Gregório.”

Obviamente, do "ponto de vista da memória colectiva", este património no extremo Norte de Portugal, não se compara ao valor histórico e arquitetónico da pastelaria sita na Avenida Guerra Junqueiro n.º 30-C, freguesia do Areeiro, Lisboa.
 
Se ao menos a edificação de Melgaço contasse com um "passarinhário"....