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23 novembro, 2016

A "Era da pós-verdade", Trump e a semana dos nossos média...



Anda tudo assarampantado, ainda, com a vitória do Trump. Vai daí, as cabeças bem pensantes da praça aliviam o seu desapontamento com o conceito trendy da "pós-verdade".

Neste momento convém dizer que não sou defensor de Trump, tenho-o por algo nefasto que trará consequências...(razão tinha Passos, o Diabo sempre apareceu!) mas irrita-me a diabolização "deste" Trump, por contraste à passividade - reverência, até - dos media a tantos outros que andam por aí! Desde que pertençam à área ideológica correta...

Mas voltemos à "pós-verdade". Para algumas mentes dormirem mais descansadas, explicam a vitória de belzebu pelo uso de recorrente de mentiras. Mentiras que, função de complexas questões relacionadas com o mundo mediático, as redes sociais, etc.., não foram, como deviam, desmontadas perante o "comum mortal" que assim, coitado, ficou à mercê da retórica, demagogia e populismo do candidato ocasional.

Isto é malta preocupada com as grandes questões! A verdade, a mentira, o papel dos media na salvaguarda da ética e (não vamos ter medo de o dizer) da moral.


Em paralelo com estas angústias, o que vi esta semana?...

Continua a novela mexicana em torno das declarações da Administração da CGD. É público e não desmentido, que a não entrega das declarações de património pelos srs administradores foi objeto de acordo prévio (verbal, email... ) da parte de Centeno e Costa. Nunca vi confrontarem diretamente Costa com esta questão. Sobre o assunto vi-o numa peça de telejornal dizer que ele "entrega as suas" (Pilatos, não faria melhor).

Qual o valor de um acordo, qual o valor da verdade, neste caso? Se eu ofereço uma determinada condição a alguém e depois verifico que ela não se pode concretizar, o procedimento correto não seria, sem rodeios, assumi-lo?
 

2 dias atrás, a propósito da solução encontrada para a Carris, numa daquelas cerimónias para abrir telejornais e propangandear soundbytes ao melhor estilo socialista, o mesmo Costa afirmava pomposamente "O bom senso prevaleceu sobre o fanatismo ideológico.", referindo-se, obviamente, ao governo anterior que tinha concessionado (não privatizado) aqueles serviços de transporte.

Deduz-se portanto que a Europa, o Mundo, está cheio de "fanáticos ideológicos", tal é número de cidades onde a gestão destes serviços é privada. Aliás, esta afirmação pode ser o paradigma da "pós-verdade", basta pensar nos diversos planos de governos socialistas - Costa entrou em quase todos, sendo assim co-responsável - para concessionar ou privatizar as empresas públicas de transportes.

E, claro, assim que surjam boas notícias na TAP, lá veremos Costa a congratular-se pela solução da privatização!

Pergunto, Trump faria melhor? Faz sentido, acusar uns de uso indiscriminado de mentira, de demagogia, e elogiar uma suposta "habilidade política" a outros que fazem uso de métodos semelhantes ou próximos?


Por último, ontem vi diversos órgãos de comunicação social destacarem "Governo antecipa reembolso ao FMI".

O que é verdade, o que é mentira? Vejamos esta notícia do início de 2016:
"Ao contrário do que estava programado, o Tesouro só vai reembolsar 3,3 mil milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2016. Este valor representa uma forte redução face ao reembolso antecipado previsto de 10 mil milhões previsto, sendo que o calendário de pagamentos para os próximos anos foi também revisto,"

Pois é, o que na agenda mediática foi apresentado como uma notícia que invocava boa saúde financeira do País e poupança para o bolso do contribuinte, é exatamente o oposto! Este governo reviu - adiando, não antecipando - os reembolsos deste empréstimo.

Se a "verdade" fosse para aqui chamada, ontem, jornalistas e comentadores, estariam a falar sobre as centenas de milhões de euros que teremos, enquanto contribuintes, de pagar a mais via impostos até 2019. Ou das áreas onde se perspectivam cortes de despesa para compensar a derrapagem... nas pensões, nos apoios sociais?   


Verdade, "pós-verdade", deixemo-nos de merdas. A nossa comunicação social é incapaz de se olhar ao espelho e perceber que é uma fraude.




P.S.: Oxford Dictionaries, define assim “pós-verdade”: um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.



              

08 fevereiro, 2016

E se, em vez de Costa, tivesse sido Passos a recomendar ao tuga que não se metesse em créditos?...

Muito me tenho divertido a apreciar o tratamento mediático que os desenvolvimentos deste "novo tempo" e deste "virar de página" da austeridade têm suscitado na agenda mediática.

Costa, que, confrontado com um chumbo da Comissão Europeia ao seu OE inicial, se viu forçado a lançar mão de um aumento de impostos no montante aproximado de 1.000 Milhões, é, na boca de jornalistas e comentadores, um negociador exímio...   
Recordem-se as palavras do próprio Costa antes das eleições: "Se o PS ganhar as eleições, os impostos vão descer." Como era o slogan? "Palavra dada, é palavra honrada..." Bem, diga-se em rigor que o PS não ganhou as eleições...

Os profissionais da indignação do "outro tempo", em vez de comporem as peças e os alinhamentos de telejornal para intoxicar e revoltar a turba, no melhor exercício do seu "duplo-critério" perante pérolas como a referida em título, optam pela mansidão... formatados na cátedra da "esquerda boazinha Vs direita maléfica" limitam-se, pacificamente, a reproduzir a propaganda do (novo) querido líder... 

Outro exemplo singelo... Só a "esquerda" pode inscrever num Orçamento medidas como esta "O Governo português comprometeu-se com a Comissão Europeia a reduzir 60 milhões de euros em gastos com subsídios de doença". Fosse um governo de "direita" já um coro de virgens indignadas estaria a ocupar as manchetes e aberturas de telejornal com as "mortes que a austeridade e os cortes cegos iria provocar".

Com jornalismo assim, quem precisa de censura?...


Portugal, o ano passado, terá tido um défice abaixo dos 3%, mas a boa gestão orçamental - inédita no contexto português - foi mediaticamente eclipsada pela (triste) novela da devolução da sobretaxa.
(já agora, os que justificaram a subida do ISP em 2016 com a quebra do preço do petróleo, bem podiam recordar que a arrecadação de IVA em 2015, pelos mesmos motivos, foi um dos maiores contributos para a devolução zero da sobretaxa...)  

Se alguns rendimentos este governo de Costa pode devolver, isso será mérito de quem?....  

2015, foi ano de eleições legislativas. Como situação comparável mais recente (2011 foram eleições antecipadas, recorde-se) temos o ano de 2009, onde os socialistas se esmeraram e, de um défice previsto inferior a 3%, as contas fecharam-se com um défice superior a 10%.

Será que os portugueses têm noção dos impostos poupados graças às "contas certas" de 2015?  

Com esta comunicação social... claro que não.

Vamos aguardar por Julho, ver como corre a execução orçamental de 2016 e assistir aos próximos capítulos, i.e., que impostos se seguem para continuar a alimentar a despesa do Estado. 


Eu aposto no IVA a 24%...

E, atenção, eu não duvido que a austeridade acabou para alguns...


Leitura recomendada:
É funcionário público e vê o Estado como o grande motor económico? Não hesite, vote António Costa…

25 maio, 2015

Conto de crianças Vs Governos tontos. "Só os burros é que não mudam!"...


Há 4 meses, António Costa referiu-se à vitória do Syriza nas eleições gregas com expressões como "um sinal de esperança" ou sinal de "esgotamento das políticas de austeridade".

Ao mesmo tempo e em relação à mesma vitória do Syriza, o atual PM pronunciou-se da seguinte forma: 


“Pedro Passos Coelho apelidou de "conto de crianças" a ideia de que "é possível que um país, por exemplo, não queira assumir os seus compromissos, não pagar as suas dívidas, querer aumentar os salários, baixar os impostos e ainda ter a obrigação de os seus parceiros garantirem o financiamento sem contrapartidas".”


Como se recordarão, a propósito deste “conto de crianças”, a agenda mediática encheu-se de indignação pelas “aberrantes” declarações Passos. Oposição e comentadores do costume, logo reduziram o conteúdo daquela reação a um conjunto de tiradas que se podem encontrar neste “artigo-guião” de Isabel Moreira e do qual se transcrevem algumas frases tocantes:

“…
Como é possível Passos não ter sentido de estado algum, o mínimo que seja?

Como é possível Passos não perceber que está a falar de um povo em chagas de tanto sofrimento após uma receita falhada?

Como é possível Passos não perceber que o que aconteceu e o que acontece na Grécia tem a ver com Portugal?

Como é possível Passos não ter qualquer espírito patriótico?

Como é possível Passos ser tão ignorante?

Como é possível Passos resumir a escolha de um povo a um conto de crianças alinhando num objetivo perigoso e estúpido de isolar a Grécia?

Diz lá, Passos. Como és possível?”



Sábado (23 de Maio), Costa dá uma entrevista ao Observador. Referindo-se à atuação do Syriza  no contexto da negociação com as instituições europeias, diz: 

“Temos de travar um combate na UE de forma inteligente, não de forma tonta como o Syriza


Se está à espera de ver aqueles que se indignaram com o “conto de crianças”, voltarem às televisões, rádios e jornais, revoltados com estas declarações, desculpe, mas é um tonto…



Recordar, sobre Costa e Syriza, o que se escreveu-se por aqui no passado mês de Janeiro:
 

Enfim, daqui a 3, 6 meses, veremos o que esta nova era do "fim da austeridade" trará e se Costa mantém esta colagem ao Syriza...  
 
...
 
Quem apenas veja telejornais e tenha fraca memória (uma vasta maioria de portugueses, infelizmente...), nem se lembra o que o último "Messias anti-Austeridade", conseguiu: é graças a Hollande que a  extrema direita francesa lidera as sondagens. 
 
Daqui a uns meses veremos se Tsipras e o Syriza ainda são entusiasticamente citados pelos socialistas. Ou, tal como sucedeu com Hollande, se a realidade e, principalmente, a circunstância de o eleitorado identificar esses "ex-Messias" como os novos símbolos de desilusão, ditará o seu varrimento para debaixo do tapete...
 
 
Votos de Boa Sorte ao povo grego... bem vão precisar dela."