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14 janeiro, 2015

Quais são, afinal, os limites de tolerância do nosso jornalismo com aqueles que violam os valores da liberdade de expressão e imprensa?


Seremos um país de “Charlies” convictos? E, mais concretamente, será a nossa classe jornalística – olhando à forma militante como aderiu ao slogan “Je suis Charlie” nos últimos dias – uma defensora implacável e intransigente, contra TODOS aqueles que ameaçam os valores da “liberdade de expressão” e da “liberdade de imprensa”?...


Talvez uma resposta a esta questão possa ser encontrada recordando esta entrevista de Octávio Ribeiro ao jornal SOL e que foi objeto deste post de Março de 2013:

"Daria um excelente "Escândalo!", se fosse para malhar na Direita....

A entrevista, dada por Octávio Ribeiro (OR) na última edição do jornal SOL, pode ser lida aqui e traz novos elementos sobre as relações de Sócrates com o mundo da comunicação social.  

«...[OR] Quando começo a ter acesso a algumas das escutas do Face Oculta apercebo-me que não era só a TVI que ia ser comprada. O CM também. Houve uma fase negra em Portugal em que, com o apoio da banca, se ponderou fazer grandes negócios na comunicação social que não visavam o objecto de negócio, mas sim mudar direcções e silenciar.

[Sol]O que pensa de Sócrates?

Entre 90 e 91, ao fim-de-semana tinha RTP e durante a semana Semanário e RR. Nesta altura, António Guterres apresenta-me uma jovem promessa. E, de facto, ele tinha um estar que contrastava: não usava gravata, dizia palavrões, era pouco mais velho do que eu e trabalhava imenso. Já como líder do PS faço-lhe a entrevista que antecede a queda de Santana Lopes, com o título: 'O PS está pronto para governar'. Logo a seguir dá-se a decisão de Sampaio. Numa primeira fase conversávamos muito, trocávamos impressões de forma aberta, ainda eu era director-adjunto.

Em 2007 ele faz-me um convite que achei que o primeiro-ministro não podia fazer

Que convite foi esse?

Para substituir o José Eduardo Moniz na TVI. Ele diz que não sabia de nada do que se estava a passar, mas em Fevereiro fez-me esse convite. Quatro meses antes. Disse-lhe que não estava disponível e a relação acabou.

Sócrates quis dominar a comunicação social?

Completamente. Tinha essa vertigem. Denunciei isso muitas vezes em editoriais. Uma vergonha. Não é um democrata. É um tipo colérico quando é contrariado. Depois desse almoço na Travessa - e uma coisa estranha é que o restaurante estava cheio, mas todas as mesas à nossa volta estavam vazias, portanto presumo que ele não marcava apenas uma mesa, mas um quadrado -, acho que nunca mais falámos.» "



Ora, perante o conteúdo desta entrevista, qual foi a reação de todos os “Charlies” que agora povoam os jornais, as televisões e as rádios? A reação foi… ZERO.


Alguém se recorda, há altura dos factos - isto é, há altura em que um governo andava a silenciar tudo o que era órgão de informação que não controlava -, de algum movimento na comunicação social a denunciar aqueles que estavam a colocar em causa a “liberdade de expressão”?

Porque não existiu reação, porque não existiu indignação? Como pode explicar-se, sendo genuína e convicta esta posição de defesa intransigente da liberdade de expressão e imprensa, o total silencio dos que agora se afirmam “Charlies”?   

Teria a ausência de reação ficado a dever-se à circunstância de tais manobras partirem de um governo “de esquerda”? O facto de essas pressões terem partido de uma personagem política, pela qual (ainda hoje, diga-se…) muitos jornalistas e comentadores nutrem uma admiração especial, terá ditado o encobrimento e esquecimento do caso, por receio do impacto que o mesmo poderia ter na opinião pública, nomeadamente, pela influência que poderia ter nas legislativas de 2009?


Enfim, por cá, a defesa da liberdade expressão e de imprensa, até pode ser importante. Mas, por favor, não venham dizer que é um “valor absoluto”. As evidências que outras causas se lhes podem sobrepor, está à vista de todos...



 

28 outubro, 2013

Ainda sobre a ideia implantada: “Direita, o clube de amigos da banca”


Ainda a propósito temática “Direita, o clube de amigos da banca”, leia estas recentes declarações de Ricardo Salgado do BES:

"
Ricardo Salgado lamenta imposto extraordinário sobre a banca
 
"Durante anos consideraram que a banca não pagava impostos suficientes para os lucros que tinha, agora temos que pagar impostos com prejuízos enormes", lamentou Ricardo Salgado, na conferência de apresentação de resultados do BES, falando do imposto extraordinário sobre o sector."

Agora, considerando os interesses dos grupos económicos que mais beneficiaram das políticas seguidas na última década, perguntem-se: com que governantes se dará melhor a banca?
- Será com o actual governo de “direita e liberal” (pois…) ou, então, numa sociedade Abrilista como a nossa (nomeadamente, os “fazedores de opinião pública”), será preferível ter no poder um governo que, com um rótulo de esquerda e “socialista”?

- Será da preferência da banca, ter um governo “de direita” que, diariamente, é escrutinado na agenda mediática por qualquer negócio mais duvidoso com o malvado “grande capital”, ou, tratando-se de um governo “de esquerda”, um governo que aposta no “investimento público” e em mais “estado social”, possa, sob esse pretexto, canalizar dezenas de milhar de milhões de Euros - à custa de dívida contraída junto da banca, recorde-se... - para as PPP (Rodoviárias, Ferroviárias, na Saúde, na Energia…), para obras megalómanas (Parque Escolar e do Aeroporto de Beja, por ex.);

Já sabe…

“Esquerda boazinha Vs Direita maléfica” 

Caro cidadão, pf, não pense. Deixe que os jornalistas façam isso por si...
 
 

19 setembro, 2013

Resumo de 2 anos de debate político em Portugal


A propósito do OE 2014 - nomeadamente, os "famigerados" cortes - e da meta do défice...

Esta declaração, embora demagógica e infantil, não é muito diferente do "ruído de fundo" que a comunicação social vem constantemente debitando nos últimos 2 anos.

Assim, de forma a resumir as milhares de palavras escritas e milhares de horas de "informação" na tv (estou a pensar nas Judites, nas Constanças, Ana Lourenço e tantos ilustres comentadores da nossa praça...), aqui fica o contributo do blog para um debate sério e esclarecido, em torno da estratégia de resolução dos problemas de Portugal:
 
 
Entretanto, aqueles que lá fora ainda nos vão emprestando (a taxas razoáveis) dinheiro para pagar os nossos "direitos adquiridos", voltam a ter dúvidas sobre as hipóteses de reaver o seu dinheirinho. Obviamente, estão na categoria "Cafageste Malvado"... apenas merecem o nosso desprezo!
 
The show... must go on! Leia-se, campanha... 
 
  
 


01 agosto, 2013

Filhos e enteados da comunicação social: Dilma Rousseff…

 
Muitos são os exemplos de duplo-critério da comunicação social no tratamento mediático dos temas que vão marcando a agenda política. Em resumo, pode dizer-se que as nossas redacções tratam:
          - tudo o que é “ de esquerda” (e não tem que o ser, o rótulo basta…) como INOCENTE até prova em contrário;

          - tudo o que é “ de direita”, como CULPADO até prova em contrário (neste caso, mesmo que seja um governo socialista em funções, rótulos como “austeridade”, “especulação financeira”, “grande capital”, etc., remetem automaticamente responsabilidades para a direita…).

A partir destes estereótipos (herdeiros do “Sebastianismo Abrilista”) temos uma gestão mediática – manchetes de jornais e aberturas de noticiários, nomeadamente – que reforça ou retira destaque aos assuntos de acordo com o seu desenvolvimento. É assim: se “a coisa“ corre de feição para “malhar na direita”, não se fala de outra coisa!
 
Veja-se o caso dos swap, por ex.: ao longo das últimas semanas o jornalismo investigou, vasculhou, procurou inconsistências, denunciou declarações contraditórias, enfim, tudo foi escrutinado (no que diz respeito ao papel de Mª L. Albuquerque).
No entanto, quando os factos e as evidências revelam, afinal, que a esquerda tem “telhados de vidro”, que as responsabilidades principais do assunto em questão até são do governo socialista, rapidamente o assunto começa a perder destaque e a cair no esquecimento… em vez do apertado escrutínio e vigilância com que os políticos ou personalidades próximas de direita, são contemplados, o jornalismo adopta uma postura bem mais passiva: não questiona, não investiganão identifica contradições, etc... Enfim, não há aquele entusiasmo... 
 


Insere-se neste contexto, a rúbrica “Filhos e enteados da comunicação social”, onde, através de casos concretos, se identificam exemplos deste duplo-critério do (fraco) jornalismo português. Desta feita, a personalidade é Dilma Rousseff

Ainda há dias, aquando da visita do Papa ao Brasil (jà agora, lembram-se de algum jornalista ou comentador luso referir o aproveitamento político feito pela “presidenta” dessa visita?...), num daqueles discursos típicos da “esquerda boazinha Vs direita maléfica”, dizia assim (notícia do Público) Dilma:

“Papa Francisco e Dilma Rousseff em sintonia contra as desigualdades no mundo”

“Na recepção ao Papa, a Presidente brasileira, que perdeu alguma popularidade no auge dos protestos de há umas semanas, considerou que a resolução da actual crise não deve limitar-se a medidas de austeridade e que os problemas sociais, por ela criados, não podem ser esquecidos….”

“Dilma propôs uma aliança para combater as desigualdades e a pobreza.”


Lá está a cassete. O P.T. (partido de esquerda, certo?!) governa o Brasil “vai para décadas”, mas, numa clássica manobra de sacudir a água do capote da sua própria governação (onde é que já vimos isto…), imputa-se a crise e “os problemas sociais”, às “medidas de austeridade”…

Enfim, Dilma – numa narrativa transversal à “esquerda”, diga-se -, recorre aquela lógica infantil que pretende explicar a actual crise, não como uma consequência de anos a fio de péssimas decisões económicas em contexto de globalização, da acumulação de dívidas monstruosas ou das promessas líricas de Estados Sociais que tudo asseguram. Não! Ao ouvir a "voz da esquerda" (e o jornalismo militante, seu fiel seguidor), esta crise resulta exclusivamente das políticas e dos políticos que defendem a “austeridade”. Dilma, claro está, não se encontra entre esses malévolos indivíduos, mas entre a galeria de políticos bonzinhos, os defensores da “anti-austeridade”.

Se as palavras e a narrativa são estas, vejamos agora os actos e as atitudes… através do Blasfémias e graças à “incontornávelHelena Matos, cruzei-me com uma interessante notícia (da Reuters) que dá umas pistas sobre o que representa e em que consiste afinal essa posição “anti-austeridade” que o Brasil de Dilma defende:

“Brasil cita risco de calote e nega apoio a novo auxílio do FMI à Grécia”
“Onze países da América Latina se recusaram a apoiar a decisão do Fundo Monetário Internacional nesta semana de continuar financiando a Grécia, citando riscos de não pagamento”

Ora cá está, ao contrário dos mal-intencionados defensores da “austeridade” - que ameaçam deixar de dar apoio financeiro à Grécia, caso os gregos não façam as reformas necessárias ( no sentido de tornarem-se uma nação sustentável) -, o governo de Dilma adopta uma posição completamente diferente e… ameaça cortar o auxílio financeiro à Grécia. Entenderam?

Esta notícia é tanto mais interessante quando se analisam outras afirmações do representante do Brasil (e de outros países sul americanos), junto do FMI e se constata a existência de um conflito entre os países sul-americanos e os países europeus:

“Sob comando da Alemanha, a zona do euro prometeu considerar medidas brandas para ajudar a Grécia no ano que vem… Mas o FMI alertou que a Grécia precisa reduzir sua dívida mais intensa e rapidamente, a fim de estimular a confiança dos investidores e obter um crescimento econômico anual na faixa de 3 por cento, podendo assim concluir o resgate financeiro.”

Notável! Já não bastava a narrativa dissimulada de esquerda, que se descarta de qualquer responsabilidade em relação a todos os males desta crise (eles "é só" crescimento e emprego), afinal, enquanto nos jornais, rádio e televisões, os vemos jurar fidelidade eterna à “anti-austeridade”, na retaguarda dos gabinetes - onde, note-se, as decisões são tomadas - criticam, por serem demasiado brandas, as medidas de ajustamento propostas por aqueles que publicamente são catalogados como os “apaixonados pela austeridade”!

Talvez seja só eu a ver aqui uma enorme hipocrisia… até porque não vi nenhum jornalista ou comentador a vislumbrar qualquer incoerência entre o discurso e os actos da “presidenta” Dilma.
 
O caro leitor viu?!


 

03 junho, 2013

O que é preciso para ser um "falhado"?

 
Uma das mensagens constantemente repetida  pelas “magnas” redacções e diariamente lançada  na agenda mediática, relaciona-se com a constante "derrapagem" das contas públicas.  Em certa medida, essa derrapagem é factual, mas este post no (Im)pertinências ajuda-nos a perceber como é manhosa e desonesta, muita da “informação” debitada a este respeito.
 
Clicar para ampliar
Este diagrama sobre as contas públicas até Abril, de Paulo Trigo Pereira, publicado num seu artigo no Público, é tão autoexplicativo que dispensaria comentários. Ou talvez não, uma vez que os mídia, praticamente sem excepções, não perceberam nada do que se passou. Só algumas chamadas de atenção.

Do lado da receita, não há surpresas; os impostos directos aumentam 18% em resultado do aumento das taxas de IRS e os indirectos diminuem 4% pela quebra do consumo; as contribuições para a segurança social aumentam 4% devido à componente CGA;

Do lado da despesa tudo aumenta, como seria de esperar, porque as reformas do Estado estão à espera do guião/argumentário do Dr. Paulo Portas; o aumento das despesas com o pessoal explica-se devido à antecipação do subsídio que representará 320 milhões – sem isso as despesas com pessoa teriam baixado de 148 milhões; as despesas de saúde reduzem-se ligeiramente o que num contexto de aumento sistemático desde há décadas é mais positivo do que parece; as outras despesas (uma parte será investimento) aumentam sem que se perceba porquê.

O saldo positivo aumentou 128 milhões e, corrigido do efeito do subsídio, aumenta 448 milhões.

Nas contas da Segurança Social e CGA, o aumento conjugado das pensões foi de 10,6% ou 716 milhões; sem surpresa, os subsídios de desemprego aumentaram 14%; corrigindo dos 563 milhões dos duodécimos do subsídio, as pensões teriam aumentado apenas 153 milhões e o saldo negativo teria sido reduzido de 8 milhões.

Em resumo: o agravamento do défice de 683 milhões, corrigido do efeito da antecipação do pagamento do subsídio de cerca de 320 + 563 = 883 milhões, transforma-se
numa melhoria de 200 milhões.
Feitas estas contas de mercearia, acessíveis a um motorista de táxi com a antiga 4.ª classe, ficam-me duas dúvidas existenciais:
  • O caso do jornalismo de causas, que unanimemente passou ao lado destas elementaridades clamando um aumento colossal do défice, é um caso de incompetência pura ou explica-se apenas pela completa ausência de escrúpulos?
  • O caso do governo ser incapaz de explicar isto decentemente é um caso de incompetência pura ou explica-se por andarem ocupados a escrever o guião/argumentário da reforma do Estado?
"
Vamos entrar no 2º semestre de 2013 e mais desvios surgirão… Para lá dos efeitos directos da reposição dos subsídios no aumento de despesa nas contas públicas (consequência do veto do Tribunal Constitucional aos cortes nos subsídios de funcionários públicos e pensionistas com rendimentos superiores a 1.350 €), outro aspecto que os Srs. jornalistas não entendem (por falta de capacidade e/ou preconceito ideológico) prende-se com o efeito recessivo que as medidas de substituição entretanto adoptadas. A este respeito, recorde-se o que em 10 de Abril se escrevia aqui no blog:

“É (e será) impossível sair do marasmo económico em que Portugal se encontra, sem beliscar a "lei fundamental". Esta é a clarificação que não pode mais ser adiada e, por isso, Passos comete um erro em não bater já com a porta e permitir que este logro se arraste. Os cortes alternativos (a conhecer nos próximos dias) terão um impacto mais recessivo sobre a economia que os cortes chumbados pelo TC, porque recairão sobre os agentes mais fragilizados neste momento económico: as pequenas e médias empresas. Muitas empresas fornecedoras do sector público estavam já no seu limite e, nova contracção do cliente Estado, atirará muitas delas para a falência... O resultado: menos receita para o Estado e mais despesa com subsídio de desemprego. Em suma, a relação - nunca explorada por comentadores e jornalistas -, entre as decisões do TC e a espiral recessiva.”

Ao longo do que resta do ano, ao ler, ver ou ouvir, as inúmeras noticias e peças informativas que darão conta aos cidadãos sobre a “derrapagem das contas” ou o “agravamento do défice” que a execução do OE 2013 inevitavelmente irá revelar, lá estarão os falhanços de Vítor Gaspar e as suas previsões, como justificação esses desvios. No entanto, já para não falar no fraco desempenho que a economia europeia veio a revelar face ao antecipado, se as “sombras constitucionais” sistematicamente determinam que nenhum Orçamento de Estado com a assinatura de Gaspar “veja a luz do dia” tal como foi concebido, fará sentido, será justo, este rótulo de “falhado” num País onde, até tempos recentes, défices anunciados de 3% se revelavam superiores a 10%? 


Abstraiam-se dos rótulos, pensem nos sucessivos governantes que nos trouxeram até aqui e perguntem-se: estaríamos pior ou melhor, se outros “brilhantes” Ministros das Finanças, se enganassem como o “falhado” Gaspar?…